Autor: José Rui

Estantes #1

Não queria mesmo nada começar esta rubrica comigo, mas conseguir colaborações dos amigos está a ser uma comodidade cada vez mais difícil. Por um lado é bom, porque permite-me explicar o que pretendo e já agora, convidar os visitantes leitores e coleccionadores de banda desenhada, a mostrarem um pouco das suas colecções e dizerem uns poucos parágrafos sobre elas. Enviem-nos fotografias (horizontais, 1422px de largura) e um pequeno texto. Pode ser sobre as estantes nas fotos, a razão da importância de determinada prateleira, ou mesmo sobre a vossa relação com a banda desenhada. Pode ser só uma fotografia e um parágrafo.

Muita gente pensa que nós na Mundo Fantasma temos colecções colossais, mas não é verdade. Tanto eu como o Vasco e o Marco, somos disciplinados, encomendamos e compramos como os outros (com desconto) e temos como prioridade a livraria e os clientes. Estes livros que aqui apresento estão no escritório e penaliza-me que não estejam todos juntos num local designado. Mas em casa, onde estavam, apareceu humidade e cá está grande parte da colecção. Por um lado é bom porque fazem parte do meu trabalho.
As estantes são simples Billy da Ikea, 14 das estreitas com banda desenhada. Se perguntam o porquê das estreitas, é porque as largas têm prateleiras que acabam por ceder com o peso dos livros e fica horrível. Também têm portas de vidro e coloquei uns felpos para impedir a entrada de muito pó.
Os comics têm todos saco e backing board. Alguns… Para que me estou a enganar?… A grande maior parte, tem um saco da Ultra-Pro que dispensa backing board mas que se revelou a decisão mais desastrosa para a minha colecção de comics. Estão a desfazer-se e precisam todos de ser substituídos, uns 2.000 no mínimo. Uma dor de cabeça para a qual ainda não tive paciência.
A banda desenhada tem uma particularidade que dificulta a ordenação, que é muitas vezes ter mais que um autor. Nesses, o meu critério é por editora e por título, ignorando os autores. Nos livros de apenas um autor, é ordem alfabética por autor (pode haver casos em que dou preferência a um autor, mesmo quando em colaboração e ordeno por esse). Há uma série de livros totalmente em desordem. Também há livros que embora não estejam totalmente nessa situação, estão arrumados por tamanho. São esses os muito pequenos e os muito grandes, o espaço é precioso em qualquer colecção e estes compromissos têm de existir. No pouco espaço que sobra de prateleira também vou juntando algum merchandise e memorabilia.
No fim chego à conclusão que tenho muitos livros. Mas também são décadas, desde que me conheço, a juntar. Espero um dia ter tudo junto num único sítio, por ordem e sempre à mão para ler ou reler.

Estantes José Rui
Continuo a ser uma pessoa dos comics e é assim que os tenho ordenados. Por editora, título.
Estantes José Rui
Esta é uma secção misturada com outros livros e no essencial desordenada.
Estantes José Rui
Aquilo que classifico como banda desenhada de autor. Ordenada por autor.
Estantes José Rui
Por cima da estante também é estante. Mais uma secção praticamente em desordem.
Estantes José Rui.
Livros desmesurados por cima das estantes. Alguns não são de banda desenhada, como o Audubon Portfolio. E sim, confesso, tenho dois Building Stories do Chris Ware.

Hipertexto #9

Billy Ireland Cartoon Library & Museum

Above the Dreamless Dead
A vida nas trincheiras da Primeira Grande Guerra. Histórias curtas de Peter Kuper, Stuart e Kathryn Immonen, Anders Nilsen, entre outros.

QCDA #1000 de Zé Burnay, Rudolfo, André Pereira e Afonso Ferreira
Estiveram o ano passado na nossa galeria com Lixo Futuro e agora têm este livro na Chili Com Carne. Já disponível na vossa livraria predileta.

Joana Afonso
Site desta autora. E o blogue.

Banda desenhada com carimbos

Palooka Ville 21
Palooka Ville 21

Seth teve esta ideia em 2005 enquanto falava ao telefone com Ivan Brunetti. Comiseravam-se ambos sobre o difícil que é manter um diário. É necessário empenho e disciplina, porque o mais fácil é a perda de entusiasmo e a rendição à rotina. Brunetti lamentava especialmente a tarefa impossível, mas desejável, que é produzir todos os dias uma tira em tom de diário. Seth sugeriu então mandar produzir uns 10 carimbos com situações típicas (grande plano, médio plano, sentado, a caminhar, etc) que seriam carimbados no caderno, eventualmente aprimorados e adicionados os balões e o texto.
A ideia funcionou em parte, Seth mandou fazer 30 carimbos ou mais, sendo um deles apenas o contorno da vinheta que acabou por ser o mais utilizado. O método basicamente permite anotar certas vivências e ideias, sem interromper o ritmo de trabalho normal do dia a dia, porque ocupa muito pouco tempo. Algumas destas tiras apesar de não terem sido planeadas para publicação, aparecem no livro Palooka Ville 21, tal como o texto a contextualizar, de onde retirei a ideia. E não me parece uma ideia nada má (David Lynch também mantinha uma tira nos jornais em que as vinhetas eram sempre as mesmas, ia mudando o texto — The Angriest Dog in the World, sendo posteriormente algumas tiras editadas na revista Cheval Noir da Dark Horse, a partir do número 20).

Palooka Ville 21

Palooka Ville 21

Comic-cons há muitas

Este mês o imaginário dos fãs de banda desenhada foi tomado de assalto pela denominada Comic-con Portugal. Na página do Facebook atingiram praticamente 8.000 “gostos” em poucos dias, mas para além disso não há mais nada e há vários sinais negativos. Como positivo, o formato colado a outras artes, media e actividades, que costumam andar de mão dada com a banda desenhada, mas não são banda desenhada. Infelizmente a bd por si só, não atrai as multidões necessárias para tornar um evento destes viável. E não é só cá, em San Diego (onde o formato aparentemente nasceu, ou foi nascendo), os autores, editoras e restante comunidade dos comics, já há uns anos que se sentem como convidados na sua própria casa, tal é a preponderância dos jogos, cinema e tv. Também não deixa de ser verdade que cada vez mais autores vêem as suas obras adaptadas para um desses meios. Está tudo interligado, é um sinal dos tempos.
Muito negativo é a tentativa deliberada de associar a Comic Con Portugal à de San Diego, ou de pelo menos criar confusão suficiente para a dúvida existir (Eurogamer). “Depois de correr o mundo, agora é a vez do nosso país ser um dos anfitriões do evento“, assegura a Magazine HD (mais o vídeo de um evento em Londres divulgado pela Comic Con Portugal). Desmentida essa situação em alguns locais mas não todos ((A Comic-con International também foi contactada por alguns fãs mais atentos e já desmentiu essa ligação.)), continua a ver-se publicados na página do Facebook filmes de Comic-cons sem qualquer relação com esta organização nacional ou com a de San Diego e sem qualquer disclamer. De Toronto, organizada pela Hobbystar; de Londres organizada pela MCM Expo Group; a de San Diego é organizada pela Comic Con International. O blogue O Café do Nerd assegura que a Conventions in the yard, já é “bastante conhecida por organizar este tipo de evento, especialmente em Londres”, o que é extraordinário para uma empresa portuguesa tão recente. O site Eurogamer diz que “foi criada recentemente por profissionais que possuem uma experiência de mais de 15 anos na organização de eventos nacionais e internacionais”.
Outro aspecto bastante negativo desta colagem às Comic-cons ao estilo americano e que cavalga a confusão deliberada é ser um evento apresentado como o primeiro. De quê? Ninguém sabe. No Diário Digital por exemplo, o título não engana “Comic Con chega pela primeira vez a Portugal“. E vai mais longe, exclamando que a “Conventions in the yard vai trazer a Portugal um dos maiores eventos de cultura pop do mundo” ((Diz que em França a convenção atingiu os 220.000 visitantes. A que se refere este jornalismo que temos? A Angoulême?)). Ora isto não honra de forma nenhuma esta organização. Eventos deste género já houve alguns, foram mais modestos no anúncio, mas existiram e continuam a existir vários. Se é o primeiro exactamente à imagem do de San Diego, não sei. Como ainda não aconteceu, parece que teremos de esperar para ver.
Além disto, há data e o local, mais nada. Nada? Nada. A página oficial no dia de hoje tem um link para o Facebook e um formulário para fazer parte de uma mailing list. Não há uma única linha de informação concreta e objectiva sobre um único aspecto da Comic Con, designadamente sobre aquilo que os fãs gostariam de saber, por exemplo que estrelas cá vêm — pela conversa no Facebook parece que os fãs são essencialmente de séries de tv (o que não admira pois em destaque na divulgação entusiástica está um site chamado Séries de TV ((Por exemplo o único comentário na notícia no Diário Digital “Uma das melhores novidades deste ano! Fantástico! :D”))) e estão a contar com estrelas de primeira linha… Esperemos que sim. Até lá — como diria o Larry David —, como apreciadores de banda desenhada e não desfazendo nas outras artes, Curb Your Enthusiasm.