Ah! Havia um livro planeado para essa exposição? Que giro, se calhar podíamos fazer para o ano, então.
José de Freitas no blogue As Leituras do Pedro, citando a organização do Amadora BD a propósito do livro “Contos de Fada” com trabalhos de autores portugueses na Marvel e para o qual a Amadora BD tinha dado “uma espécie de OK prévio”.
Esta citação foi o melhor resumo que li sobre a forma como a banda desenhada é tratada em Portugal pelas suas forças quase vivas, tenham elas 25 anos, ou estejam a começar. Pura classe.
Portugal é o país convidado para o Treviso Comic Book Festival (ou Festival Internazionale di Fumetto e d’Illustrazione), a acontecer entre 24 e 28 de Setembro. Importante festival de Banda Desenhada que graças ao comissário Alberto Corradi (também autor que foi publicado na antologia Mutate & Survive da CCC) tem estado atento às recentes edições italianas de livros dos portugueses Filipe Abranches (História de Lisboa com argumento de A.H. de Oliveira Marques), Pedro Burgos (Airbag) e João Fazenda (Tu És a Mulher da Minha Vida, Ela a Mulher dos Meus Sonhos com Pedro Brito), autores que estarão presentes no evento.
A exposição com originais Quadradinhos: sguardi sul fumetto portoghese contará com 14 artistas nacionais como Filipe Abranches, Joana Afonso, Ana Biscaia, André Coelho, Jorge Coelho, João Fazenda, Afonso Ferreira, Francisco Sousa Lobo, Pedro Burgos, Pepedelrey, Miguel Rocha, Rudolfo, Nuno Saraiva e José Smith Vargas. Estará patente no Spazi Bomben / Fondazione Benetton, inaugurando dia 27 de Setembro e estará patente até 12 de Outubro.
De realçar que haverá um catálogo bilingue (italiano e inglês), co-editado entre a MiMiSol e a Chili Com Carne, que inclui um prefácio de Marcos Farrajota, uma eficiente História da BD portuguesa por Corradi e BDs dos autores participantes na exposição, e em alguns casos com textos de outros autores — Biscaia com texto de João Pedro Mésseder, Rocha com Susana Marques, Afonso com André Oliveira e Jorge Coelho com Paul Allor. O catálogo teve o apoio da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e do Instituto Português da Juventude e Desporto.
Depois daquilo que na minha opinião foi um arranque em falso, tive uma primeira reunião com dois dos responsáveis da Comic Con Portugal, que considerei muito positiva, embora centrada em explicar o que é a Comic Con Portugal e em gerir danos de um início que não foi o melhor. O que posso dizer é que as coisas foram apresentadas de uma forma clara e muito profissional, completamente ao arrepio da primeira impressão via nota de imprensa, sites e Facebook.
A Comic Con Portugal quer-se assumir como um grande evento de entretenimento que os organizadores não vêem, ou não imaginam sem a banda desenhada, porque no seu entender é o início de tudo. Assim além da banda desenhada e seguindo para depois adaptar o figurino das Comic Cons, será o Cinema, TV, Jogos de Vídeo e Jogos (digamos normais).
A Comic Con Portugal apareceu de repente, houve um burburinho incrível e de repente desapareceu. Perguntam-nos, mas nós não sabemos de nada.
Entretanto, tivemos esta semana uma segunda reunião onde já se falou de coisas concretas que a organização ainda não considera oportuno divulgar. Aquilo que posso dizer é que mais uma vez foi tudo apresentado muito clara e profissionalmente, que existem coisas a decorrer e que é bem possível que exista realmente uma Comic Con digna desse nome este ano em Portugal (o plano é para consolidar o projecto em cinco anos). Portanto, ok.
Exposições, debates, lançamentos, mercado do livro, conversas informais e desenhos à volta de boa comida, bons copos e amigos. E com isto se faz o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja (FIBDB), que abriu no passado dia 31 de Maio a sua 10ª. edição, num Sábado relaxado e solarengo em plena planície alentejana.
O exterior da Casa da Cultura, espaço central do FIBDB.
Com o apoio de uma pequena mas coesa equipa de colaboradores, entre eles a imparável Susa Monteiro, a autora do cartaz deste ano, Paulo Monteiro, o director da Bedeteca e mestre-de-cerimónias, fez com que os inúmeros eventos programados começassem a horas, em particular os lançamentos de livros e apresentações de projectos que aconteceram no 1º. piso da Casa da Cultura, e isto sempre com o seu profissionalismo informal já habitual, demonstrando na prática que os tradicionais atrasos ou tolerâncias horárias nacionais podem e devem ser modificados.
O público poderá visitar até 15 de Junho 21 exposições, na sua maioria na Casa da Cultura, a sede do Festival, mas com núcleos espalhados um pouco por todo o centro histórico da cidade, onde autores portugueses, a maioria e de qualidade elevada, e de diversos países — Brasil, Itália, França, Reino Unido, México, Finlândia, Angola ou Letónia, entre muitos outros — representam uma boa selecção dos vários estilos gráficos e narrativos que a banda desenhada possibilita, todos expostos sem dogmas e num festival único a nível nacional, que se assume, e é-o de facto, de vanguarda.
Aspecto da exposição de Guido Crepax.
Um dos pontos altos desta edição é a exposição de 18 pranchas originais de Guido Crepax (1033-2003), o talentoso mestre milanês formado em Arquitectura, criador de Valentina e de outras personagens femininas de carácter forte e independente – Bianca, Anita ou Belinda — que se tornaram referências na emancipação da mulher e da revolução sexual nos anos de 1960 e 70.
Assim, numa iniciativa de Manuel Espirito Santo através da sua Invicta Indie Arts, o público poderá apreciar no núcleo da Rua dos Infantes do Museu Regional de Beja (e não na Casa da Cultura onde mereceria sem dúvida ficar junto com núcleo principal do Festival), pranchas de grande formato que confirmam o imenso talento de Crepax, desde as primeiras pranchas de Neutron, a série de ficção-científica que o autor criou em 1965 e onde Valentina apareceu pela primeira vez, até à sua adaptação do Drácula de Bram Stoker já em 1987.
Exposição de Laerte.
Outra exposição em destaque e presença bem agradável foi a de Laerte, o conhecido autor brasileiro criador, entre muitos outros personagens, dos anárquicos Piratas do Tietê e que desde 2009 se assumiu como travesti. Só por si este facto não teria a mínima relevância se não tivesse sido um dos catalisadores para que as tiras humorísticas da (agora) autora sofressem uma notória evolução, quer no maior arrojo gráfico, quer nas questões mais filosóficas que recorrentemente levantam.
A sobriedade da iluminação e dos planos arquitectónicos das exposições são exemplares.
Não posso também deixar de destacar a presença do britânico David Lloyd, que divulgou o seu projeto digital Aces Weekly e, em dois dedos de conversa, falou inevitavelmente sobre a sua colaboração com Alan Moore na criação da seminal série V for Vendetta e da máscara agora usada por grupos anónimos de intervenção politica e social.
O Mercado do Livro com David Lloyd (à esquerda).
Muito esperado é sempre o Mercado do Livro. Instalado no exterior da Casa da Cultura os visitantes, munidos das suas listas de procuras, poderão encontrar várias novidades editoriais e fundos de catálogo a preços convidativos. E aqui vale mesmo a pena passar algum tempo à procura de alguma pérola que tenha passado despercebida a olhares menos atentos, como por exemplo O Falcão nº 1000 com a arte do Alberto Breccia, que encontrei soterrado debaixo de uma pilha de mangás, ou ainda ter o gosto de desprezar edições que mesmo a preço reduzido são de péssima qualidade como é o caso do primeiro volume — e único até à data —, do Mort Cinder: Os Olhos de Chumbo de Oesterheld e Breccia, editado pela Asa em 2005.
Em resumo: Este é um grande evento sobre banda desenhada, o melhor a nível nacional, que mantém a saudável intenção de juntar autores consagrados, portugueses e estrangeiros, com autores que começam agora o seu percurso, conferindo uma atmosfera muito especial ao festival, onde o clássico e o contemporâneo se juntam para mostrar os caminhos a trilhar no futuro.
André Azevedo escreve habitualmente no blogue A Garagem.