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Alvin Buenaventura 1976-2016

Alvin Buenaventura
Fotografia de Jay Babcock.

Se eu fosse realmente editor de alguma coisa, gostava de editar como o Alvin Buenaventura. Com um amor incondicional pela arte, uma atenção ao detalhe inigualável, um desprendimento sobre as consequências económicas do perfeccionismo e uma capacidade robótica de detectar qualidade.
Pessoalmente era um ser atribulado, tinha tudo para falhar, mas em pouco tempo deixou uma obra marcante, primeiro com a sua Buenaventura Press (infelizmente falida por razões que nunca foram esclarecidas depois do gigante e polémico Kramers Ergot 7) e mais recentemente com a Pigeon Press. Pelos testemunhos, facilmente se conclui tratar-se de uma pessoa que foi cedo demais, ainda ficou muita banda desenhada por editar e um vazio difícil de preencher.

Alvin was the one comic book publisher who was temperamentally more like a cartoonist than like a publisher; shy, riddled by self-doubt and occasional depression but always generous and, especially in his notes, enthusiastic if not even incongruously exuberant, he privately suffered despite trying to bring some cheeriness into other people’s lives.
Chris Ware

I still remember how nervous he was printing The Comic Book Holocaust. He thought we would be sued or that even selling it at a convention would get him beat up.
Johnny Ryan

Alvin Buenaventura was the most important person in my life outside my immediate family. (…) he was inexplicable, the most singular human being I’ve ever met. There’s nobody else in the world even remotely like him. He can’t ever be replaced in any way. He was born into a nondescript suburban So. Cal. army-brat childhood that could have in no way indicated his future, magically gifted with what can only be described as a perfect eye.
Daniel Clowes

Links de interesse

Blog Flume
Daniel Clowes no Comics Reporter.
The Comics Journal
Dustin Harbin

Hipertexto #72

A construção de Daniel Clowes
Com a nova graphic novel “Patience” no prelo e o filme Wilson em produção, um bom artigo para se entender um dos autores fundamentais das últimas décadas. The California Sunday Magazine.

As ondas gravitacionais explicadas
PHD.

Lisa Hanawalt
Autora com montes de projectos interessante.

Dustin Harbin
Um dos autores que relembrou Alvin Buenaventura numa pequena bd.

Um falso problema

Daniel Clowes
Daniel Clowes.

Angoulême é uma convenção de banda desenhada. Não é de cinema, nem de tv, nem de “cultura pop”, é de banda desenhada e nesse aspecto é um bastião. Durante muitos anos a direcção do festival soube essencialmente que existia bd franco-belga (mesmo tendo atribuido o grande prémio a Will Eisner logo no segundo ano) e se tivessem continuado assim, seria uma opção tão respeitável como qualquer outra. Mas, começaram a mostrar o que mais se fazia pelo Mundo designadamente a partir de 1990 com o tema “Inglaterra” e também provavelmente pela primeira vez na Europa, com os japoneses através da editora Kodansha e da exibição do filme Akira de Katsuhiro Otomo. O grande prémio, que para quem não sabe é um prémio de carreira1 — não de um ano da carreira, nem de 10, ou de um álbum, ou de uma série — foi sempre essencialmente atribuído a franceses2.

Este ano, uma dessas associações de “causas” resolveu que nos 30 nomeados para o grande prémio, tinham obrigatoriamente de estar mulheres (não sei se exigem quota de 50%). Os nomes das autoras avançados como crime de lesa-majestade não estarem nomeadas e que eventualmente estiveram noutros anos, pura e simplesmente não se entendem se não for à luz de polémicas estéreis. Por exemplo, Marjane Satrapi que já esteve no Porto a convite do SIBDP e é uma autora adorada na nossa livraria, já foi nomeada mas a verdade é que não tem obra para um prémio de carreira, nem coisa que se pareça. É multipremiada em Angoulême e se continuasse a fazer bd, talvez merecesse o grande prémio daqui a 10 ou 20 anos. Infelizmente, o último livro saiu em 2004, depois disso dedicou-se à animação e ao cinema. Querem voltar a nomeá-la para cumprir quotas? Patético. Outro nome que li como possível é Aline Kominsky-Crumb… Estas pessoas que fazem estas sugestões pensam realmente que Aline Kominsky-Crumb, criou obra até 2016 que a coloca no mesmo patamar de Robert Crumb, que venceu em 1999? Não me parece possível, quanto mais credível.

Matt Madden que faz parte do júri e acordou tarde para o “problema”, mas apanhou o comboio da indignação e rapidamente passou para a primeira carruagem, em declarações ao site Robot6, ainda acrescenta a falta de representatividade das minorias. (Porque é que não vai antes ver o Star Wars? — aliás, grave e sem relação, é a ausência da Rey nos brinquedos.) Pessoalmente, já não tenho a mínima paciência para este politicamente correcto — “espalhamos justiça pelo mundo” — à americana. O ano passado ganhou Katsuhiro Otomo, aparentemente de uma minoria em França, embora eu julgue que os japoneses no Japão ainda são a maioria. E o autor que no fundo acabou por criar a situação foi (tristemente para mim) Daniel Clowes, é judeu, não sei se conta como minoria, nunca liguei muito a isso e não estava preocupado em agradar à comunidade judaica e muito menos ao Matt Madden, quando chamei à livraria “Mundo Fantasma”. Tal como não penso na Marjane Satrapi como mulher ou iraniana quando leio as obras dela, seria redutor na minha opinião. Limito-me a achar que está ali muito boa banda desenhada.

Segundo Matt Madden, para atribuir os prémios há duas mulheres num júri de sete; a concurso há 11 obras em 47 e ele acha que “está longe de representar a realidade, mas é um passo na direcção certa” (que insuportável bullshit). Que realidade3? A das associações de “causas”? É que na realidade que eu conheço da criação de banda desenhada, 23,4% de mulheres autoras não existe em lado nenhum e mesmo que existisse, o critério deve ser esse ou, digamos, a qualidade das obras segundo o júri? No grande prémio — que celebra uma vida dedicada à arte —, um dos critérios julgo que deve ser existir uma carreira, pelo menos. Quando constatamos que um Alan Moore ainda não ganhou (a verdade nua e crua é que ganha apenas um autor por ano), eu diria que as mulheres (neste caso) e todos os outros, têm de escrever mesmo muito para poderem sonhar ganhar nos próximos anos.

Assim, temos criado mais um falso problema, mais uma “causa” da treta e um péssimo serviço prestado à banda desenhada através do apoucamento do seu mais prestigiado festival em todo o Mundo. O mencionado Daniel Clowes, Charles Burns, Chris Ware, Riad Sattouf, Joann Sfar ou Milo Manara boicotam o grande prémio. Este último, faz questão de salientar a importância das mulheres na sua vida artística (não!), sempre respeitador do seu papel e não como objectos (eu não ia inventar uma coisa destas). Enfim, este fiasco já valeu a pena só para nos revelar um Manara, afinal, feminista. Desenha umas mulheres magníficas, mas como autor de banda desenhada completo sempre foi medíocre, não faz qualquer falta na lista de nomeados.

Nesta livraria, há quase 25 anos os clientes eram virtualmente todos do sexo masculino. Ninguém barrava a entrada a mulheres, aliás elas entravam com os filhos, com os namorados, com os maridos… e invariavelmente torciam o nariz ao que viam, quando não criticavam abertamente. Essa realidade felizmente tem vindo a mudar, hoje cerca de 40% dos clientes são mulheres, muito por via do mangá, mas ultimamente têm diversificado muito os seus gostos. Significa que a banda desenhada está mais rica, apela também a essa metade da população; a livraria está mais rica e (ainda) melhor frequentada, as mulheres trazem um óptimo ambiente, sempre detestei locais a parecerem “man caves”. Mas, também é um indicador que as mulheres estão menos preconceituosas relativamente a uma arte que — não consideravam para homens —, consideravam para crianças e crianças grandes. Mas, mais importante, não foi o Estado que nos impôs quotas, ou que obrigou as mulheres a ler bd; nem foram os boicotes de associações de “causas”; nem eu disse ao Vasco ou ao Marco que tinham que vender 50% dos livros a mulheres. A porta sempre esteve aberta, entra quem quiser e toda a gente é bem-vinda. Na parte criativa, exibimos virtualmente tudo o que as mulheres produzem de qualidade e a que temos acesso, se não se vende mais é porque os clientes (homens e mulheres) não compram.

Onde eu consigo dar alguma razão aos protestos, mas nunca ao ponto de armar esta mise-en-scène é que a lista tem 30 nomes e de facto não tem nenhuma mulher. Não acho grave e acharia ainda menos se: olhando mais de perto, nos trinta não estivessem nomes que obviamente não têm qualquer categoria para lá estar e de facto estão por razões alheias à banda desenhada. Riad Sattouf por exemplo, de origem síria. Tem 37 anos, uns parcos 10 anos de carreira se tanto… já dá direito a nomeação para o grande prémio de Angoulême? Então sim, dou alguma razão aos protestantes, a Marjane Satrapi tem obra bem mais significativa (e é iraniana, tem de contar para alguma coisa), só é pena que dois erros nunca tenham dado uma coisa certa.

Se acharem que estou errado, respondam nos comentários juntamente com uma pequena lista de mulheres que deviam estar nomeadas, mas lembrem-se que concorrem contra autores como Richard Corben, Hermann, Lorenzo Mattotti, Nicolas de Crécy, Stan Lee, Alan Moore, Frank Miller, Cosey, Jirô Taniguchi, Naoki Urasawa ou Jean Van Hamme. Que ganhe o — ou a — melhor.

  1. Le Grand Prix du Festival d’Angoulême est une récompense remise annuellement depuis 1974 lors du Festival international de la bande dessinée d’Angoulême à un auteur de bande dessinée pour récompenser sa carrière. Wikipedia. []
  2. 35 vezes, num total de 49, mas apenas sete vezes fora da esfera de edição franco-belga. Wikipédia. []
  3. Em França a percentagens de mulheres a trabalhar em bd é de 12% segundo a Wikipedia e é obviamente historicamente alta []