Um falso problema

Daniel Clowes
Daniel Clowes.

Angoulême é uma convenção de banda desenhada. Não é de cinema, nem de tv, nem de “cultura pop”, é de banda desenhada e nesse aspecto é um bastião. Durante muitos anos a direcção do festival soube essencialmente que existia bd franco-belga (mesmo tendo atribuido o grande prémio a Will Eisner logo no segundo ano) e se tivessem continuado assim, seria uma opção tão respeitável como qualquer outra. Mas, começaram a mostrar o que mais se fazia pelo Mundo designadamente a partir de 1990 com o tema “Inglaterra” e também provavelmente pela primeira vez na Europa, com os japoneses através da editora Kodansha e da exibição do filme Akira de Katsuhiro Otomo. O grande prémio, que para quem não sabe é um prémio de carreira1 — não de um ano da carreira, nem de 10, ou de um álbum, ou de uma série — foi sempre essencialmente atribuído a franceses2.

Este ano, uma dessas associações de “causas” resolveu que nos 30 nomeados para o grande prémio, tinham obrigatoriamente de estar mulheres (não sei se exigem quota de 50%). Os nomes das autoras avançados como crime de lesa-majestade não estarem nomeadas e que eventualmente estiveram noutros anos, pura e simplesmente não se entendem se não for à luz de polémicas estéreis. Por exemplo, Marjane Satrapi que já esteve no Porto a convite do SIBDP e é uma autora adorada na nossa livraria, já foi nomeada mas a verdade é que não tem obra para um prémio de carreira, nem coisa que se pareça. É multipremiada em Angoulême e se continuasse a fazer bd, talvez merecesse o grande prémio daqui a 10 ou 20 anos. Infelizmente, o último livro saiu em 2004, depois disso dedicou-se à animação e ao cinema. Querem voltar a nomeá-la para cumprir quotas? Patético. Outro nome que li como possível é Aline Kominsky-Crumb… Estas pessoas que fazem estas sugestões pensam realmente que Aline Kominsky-Crumb, criou obra até 2016 que a coloca no mesmo patamar de Robert Crumb, que venceu em 1999? Não me parece possível, quanto mais credível.

Matt Madden que faz parte do júri e acordou tarde para o “problema”, mas apanhou o comboio da indignação e rapidamente passou para a primeira carruagem, em declarações ao site Robot6, ainda acrescenta a falta de representatividade das minorias. (Porque é que não vai antes ver o Star Wars? — aliás, grave e sem relação, é a ausência da Rey nos brinquedos.) Pessoalmente, já não tenho a mínima paciência para este politicamente correcto — “espalhamos justiça pelo mundo” — à americana. O ano passado ganhou Katsuhiro Otomo, aparentemente de uma minoria em França, embora eu julgue que os japoneses no Japão ainda são a maioria. E o autor que no fundo acabou por criar a situação foi (tristemente para mim) Daniel Clowes, é judeu, não sei se conta como minoria, nunca liguei muito a isso e não estava preocupado em agradar à comunidade judaica e muito menos ao Matt Madden, quando chamei à livraria “Mundo Fantasma”. Tal como não penso na Marjane Satrapi como mulher ou iraniana quando leio as obras dela, seria redutor na minha opinião. Limito-me a achar que está ali muito boa banda desenhada.

Segundo Matt Madden, para atribuir os prémios há duas mulheres num júri de sete; a concurso há 11 obras em 47 e ele acha que “está longe de representar a realidade, mas é um passo na direcção certa” (que insuportável bullshit). Que realidade3? A das associações de “causas”? É que na realidade que eu conheço da criação de banda desenhada, 23,4% de mulheres autoras não existe em lado nenhum e mesmo que existisse, o critério deve ser esse ou, digamos, a qualidade das obras segundo o júri? No grande prémio — que celebra uma vida dedicada à arte —, um dos critérios julgo que deve ser existir uma carreira, pelo menos. Quando constatamos que um Alan Moore ainda não ganhou (a verdade nua e crua é que ganha apenas um autor por ano), eu diria que as mulheres (neste caso) e todos os outros, têm de escrever mesmo muito para poderem sonhar ganhar nos próximos anos.

Assim, temos criado mais um falso problema, mais uma “causa” da treta e um péssimo serviço prestado à banda desenhada através do apoucamento do seu mais prestigiado festival em todo o Mundo. O mencionado Daniel Clowes, Charles Burns, Chris Ware, Riad Sattouf, Joann Sfar ou Milo Manara boicotam o grande prémio. Este último, faz questão de salientar a importância das mulheres na sua vida artística (não!), sempre respeitador do seu papel e não como objectos (eu não ia inventar uma coisa destas). Enfim, este fiasco já valeu a pena só para nos revelar um Manara, afinal, feminista. Desenha umas mulheres magníficas, mas como autor de banda desenhada completo sempre foi medíocre, não faz qualquer falta na lista de nomeados.

Nesta livraria, há quase 25 anos os clientes eram virtualmente todos do sexo masculino. Ninguém barrava a entrada a mulheres, aliás elas entravam com os filhos, com os namorados, com os maridos… e invariavelmente torciam o nariz ao que viam, quando não criticavam abertamente. Essa realidade felizmente tem vindo a mudar, hoje cerca de 40% dos clientes são mulheres, muito por via do mangá, mas ultimamente têm diversificado muito os seus gostos. Significa que a banda desenhada está mais rica, apela também a essa metade da população; a livraria está mais rica e (ainda) melhor frequentada, as mulheres trazem um óptimo ambiente, sempre detestei locais a parecerem “man caves”. Mas, também é um indicador que as mulheres estão menos preconceituosas relativamente a uma arte que — não consideravam para homens —, consideravam para crianças e crianças grandes. Mas, mais importante, não foi o Estado que nos impôs quotas, ou que obrigou as mulheres a ler bd; nem foram os boicotes de associações de “causas”; nem eu disse ao Vasco ou ao Marco que tinham que vender 50% dos livros a mulheres. A porta sempre esteve aberta, entra quem quiser e toda a gente é bem-vinda. Na parte criativa, exibimos virtualmente tudo o que as mulheres produzem de qualidade e a que temos acesso, se não se vende mais é porque os clientes (homens e mulheres) não compram.

Onde eu consigo dar alguma razão aos protestos, mas nunca ao ponto de armar esta mise-en-scène é que a lista tem 30 nomes e de facto não tem nenhuma mulher. Não acho grave e acharia ainda menos se: olhando mais de perto, nos trinta não estivessem nomes que obviamente não têm qualquer categoria para lá estar e de facto estão por razões alheias à banda desenhada. Riad Sattouf por exemplo, de origem síria. Tem 37 anos, uns parcos 10 anos de carreira se tanto… já dá direito a nomeação para o grande prémio de Angoulême? Então sim, dou alguma razão aos protestantes, a Marjane Satrapi tem obra bem mais significativa (e é iraniana, tem de contar para alguma coisa), só é pena que dois erros nunca tenham dado uma coisa certa.

Se acharem que estou errado, respondam nos comentários juntamente com uma pequena lista de mulheres que deviam estar nomeadas, mas lembrem-se que concorrem contra autores como Richard Corben, Hermann, Lorenzo Mattotti, Nicolas de Crécy, Stan Lee, Alan Moore, Frank Miller, Cosey, Jirô Taniguchi, Naoki Urasawa ou Jean Van Hamme. Que ganhe o — ou a — melhor.

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  1. Le Grand Prix du Festival d’Angoulême est une récompense remise annuellement depuis 1974 lors du Festival international de la bande dessinée d’Angoulême à un auteur de bande dessinée pour récompenser sa carrière. Wikipedia. []
  2. 35 vezes, num total de 49, mas apenas sete vezes fora da esfera de edição franco-belga. Wikipédia. []
  3. Em França a percentagens de mulheres a trabalhar em bd é de 12% segundo a Wikipedia e é obviamente historicamente alta []

Hipertexto #69

“One of the saddest and most perfect things I’ve ever read.”
O crítico de cinema A. O. Scott, critica Killing and Dying de Adrian Tomine no New York Times.

Anatomy 360
Não deve haver material de referência para desenho do corpo muito melhor que este. Aqui um exemplo com dezenas de scans.

Creating Your Graphic Memoir
Um curso online por Tom Hart.

Tributo a Shigeru Mizuki (1922-2015)
Autor genial recentemente falecido. Na Drawn & Quarterly.

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Hipertexto #68

Entrevista com Adrian Tomine
“I think the first big criticism was the clarity of my influences. Or more specifically, that I was “ripping off” certain artists.” The Comics Journal.

The New Yorker, capa animada
De Chris Ware com colaboração de Ira Glass, John Kuramoto e outros.

Brian K. Vaughan aderiu às “redes sociais”
Para nos dizer que fez uma bd com Marcos Martín onde as redes sociais destroem o futuro. The Beat.

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Sugestões #66

Nightmare Before Christmas

Com o Natal à porta, trago mais sugestões a pensar já em prendas para 2016, a destacar Rocket Raccon and Groot por Skottie Young e Filipe Andrade na Marvel, Hellboy: Winter Special por Mike Mignola, Tim Sale e companhia na Dark Horse, Swamp Thing por Len Wein e Kelley Jones na DC e Devolution por Rick Remender e Jonathan Wayshak na Dynamite. Aproveitem para passar na livraria que este ano é o local para comprar os presentes de Natal, está cheia de coisas boas. Um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de grandes leituras!

Marvel para assinatura

Old Man Logan #1

Por Jeff Lemire e Andrea Sorrentino. Daqui a cinquenta anos, Logan, o homem que deixou de se chamar Wolverine, terá passado por muitas atrocidades. E a causa foi quando todos os vilões se juntaram e eliminaram todos os heróis do mundo. Hawkeye, o amigo mais próximo de Logan, foi assassinado à sua frente, e enlouquecido pela mesma radiação que lhe deu a sua força super-humana, Bruce Banner será pai duma família de Hulks “labregos”, que irão eventualmente massacrar a família de Logan. Mas agora no presente, Logan acorda para descobrir um mundo antes das atrocidades, antes da Wasteland. E agora ele vai aproveitar a oportunidade para mudar a história e garantir que o futuro não se repita.

Rocket Raccoon and Groot #1

Por Skottie Young e Filipe Andrade. Apareceu um novo génio do crime na galáxia e é Rocket Raccoon! Como é que isto aconteceu? Groot sabe, mas ele não fala! Bem ele fala, mas só diz a mesma coisa! Perigos diabólicos, mistérios insanos e fantásticas aventuras abundam neste novo épico de Rocket Raccoon e Groot!

Spider-Man/Deadpool #1

Por Joe Kelly e Ed McGuinness. O fantástico Spider-Man e o “bocaças” do Deadpool juntos nesta nova série da Marvel. Isto é só aventura, acção, humor, talvez uma pitada de romance e Deadpool! O lendário azar de Peter Parker está de volta!

Agents of Shield #1

Por Marc Guggenheim e German Peralta. No mundo de espionagem da Marvel, os agentes da SHIELD estão de volta, com Coulson e companhia. E para começar temos os “Coulson Protocols” com Tony Stark no meio da confusão.

Star Wars: Obi-Wan and Anakin #1 (de 5)

Por Charles Soule e Marco Checchetto. Antes das suas acções heróicas na Clone Wars, antes do seu trágico confronto em Mustafar e décadas antes do seu confronto final na Death Star, eles eram apenas o mestre Obi-Wan Kenobi e o seu aprendiz Anakin Skywalker. Passaram-se vários anos desde que Obi-Wan iniciou o treino do jovem escolhido e a sua ligação tem aumentado através disso, mas o caminho que percorreram até agora tem sido difícil. Agora num planeta remoto, em que se encontram para responder a um pedido de auxilio, a sua relação poder ser levada ao ponto de ruptura.

Dark Horse

Hellboy: Winter Special (One-Shot)

Por Mike Mignola, Michael Walsh. Michael Avon Oeming, Tim Sale e companhia. Neste especial com três pequenos contos que vão revelar mais sobre o universo de Hellboy. Em destaque a história ilustrada por Tim Sale que vai afectar as histórias futuras de Hellboy and the BPRD. A não perder!

Dark Horse para assinatura

Danganronpa Vol. 01

Por Takashi Tsukumi. Todos os anos a escola elitista Hope’s Peak selecciona apenas o mais dotados e talentosos alunos, mais um aluno perfeitamente banal, escolhido por lotaria. Makoto Naegi foi o sortudo este ano, ou pensava ele! Quando ele aparece nas aulas, ele descobre que os alunos de élite são um grupo estranho e bizarro de individuos sobre o controlo da autoridade implacável dum urso de peluche robot Monokuma, que é o reitor! O urso expõe as regras da escola: a única saída de Hope’s Peak será matar outro estudante, e safar-se do crime, já que cada crime é seguido dum tribunal onde os alunos sobreviventes interrogam-se uns aos outros!

Image para assinatura

Cry Havoc #1

Por Simon Spurrier e Ryan Kelly. Imaginem um mundo onde os monstros existem, misturando a intensidade bélica de Jarhead e o folclore do Labirinto de Pan, incluam uma lésbica que é lobisomem e que vai para a guerra e eis o mundo de Cry Havoc!

DC para assinatura

Legend of Wonder Woman #1 (de 9)

Por Renae De e Ray Dillon. No inicio só havia caos, mas Hippolyta, rainha das Amazonas, viu um futuro melhor,e a sua filha está destinada a levar o mundo ao novo destino. Mas antes que Diana de Themyscira cumpra a profecia, ela terá de aprender importantes lições na sua infância.

Swamp Thing #1 (de 6)

Por Len Wein e Kelley Jones. Swamp Thing recebe um aviso importante e agora ele encontra-se debaixo de fogo por forças de magia negra. Estes são mais que os monstros típicos e existe algo pior no horizonte de Alec Holland.

Dynamite para assinatura

Devolution #1 (de 5)

Por Rick Remender e Jonathan Wayshak. Todos os seres vivos na Terra ivoluíram, o relógio evolucionário voltou atrás, revertendo toda a vida em estranhas mutações e encarnações pré-históricas. As cidades não são mais do que territórios sangrentos, implacavelmente dominados por tribos de neandertais, montados em mamutes, onde abundam tigres dentes-de-sabre e insectos gigantes. Esta é a história do último grupo de humanos “Still Sapien” que procuram encontrar um antídoto para voltar a evoluir a raça humana.

NBM

Cruising Through the Louvre HC

Por David Prudhomme. O autor David Prudhomme passeia pelo Louvre onde todo o tipo de pessoas de todo o mundo cruzam-se em silêncio. Ele decide andar pelo Louvre em passo acelerado, não para observar a arte, mas para observar as pessoas e sua interacção com esta. Ele descobre durante duas horas diferentes grupos de pessoas envolvidos com diferentes peças de arte, num estranho silêncio e casual coreografia dançada no meio dum dos mais famosos museus do mundo.

Boom! Studios

Mezolith Vol. 01 HC

Por Ben Haggarty e Adam Brockbank. Dez mil anos atrás a tribo Kansa vivia na costa este da Inglaterra da Idade da Pedra, onde o perigo abunda. Cada estação traz novas aventuras, cada caçada um risco, e cada encontro com a tribo vizinha uma ameaça. Poika, um jovem que tem de confiar na sabedoria dos anciãos e aguentar os rituais de passagem da vida para encontrar o seu lugar na tribo.

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